segunda-feira, 19 de junho de 2017

(Tu) É arte de cinco estrofes

Quando me vejo na incessante vontade de ler algo que me preencha ou escrever de forma fluida como o rio em direção ao mar, me lembro de você. 
E ao pensar em ti o vejo como a mais perfeita poesia que eu poderia ler, escrever ou imaginar.

Você é poesia! Daquelas que a gente gosta de ler sempre, para um dia decorar e recitar para a pessoa amada.
Mas também é poema inacabado que a cada dia descobrimos um novo verso escondido e nos faz apaixonar ainda mais.
Você é crônica de Rubem Alves que vai acalentando a alma e aumentando a vontade de concretizar os sonhos da vida.

Você é drama quando quer.
Comédia a vida inteira.
Romance quando menos se espera.
E suspense sempre acompanhado de animação. 
Contraditório?  É você também!

É texto esquecido em teatro com plateia cheia, improviso nas peças de Shakespeare que todo mundo vai perceber, mas e daí?! É você!
Os textos não são capazes de te traduzir.
Suas expressões fogem da arte moderna.

E o seu sorriso... Esse é indescritível, seja usando a arte que for.
Seu olhar que me acalma e seus braços que são minha casa, não entram no mundo da literatura.
Mas são perfeitamente o meu mundo




domingo, 2 de abril de 2017

Ah, solidão!

Na minha saudade cabem lembranças que os lembrados já tenham esquecido.” 
(Frederico Elboni)

Ao ver a solidão bater à porta a deixo entrar. Ela trouxe consigo lembranças, histórias, sonhos e sentimentos. Abusada sentou à minha frente, me ofereceu um café e me mostrou o que trazia em sua mala.

Colocou sob a mesa muitas lembranças felizes e que muito me acrescentaram. Mas logo depois recolheu meu sorriso mostrando a saudade que ficou. A solidão se fez amiga e me deu sonhos. Deixou que eu flutuasse pelos meus pensamentos e pintasse lindos sonhos, com bastante cor. Mas também não demorou muito a me dizer que eu iria parar por ali, sonhos seriam apenas sonhos.

A essa hora a solidão já tinha desfeito toda sua mala e feito morada em mim. Como uma boa intrusa, não pediu licença e nem chegou devagar. Apenas despejou sua bagagem e me deixou analisando tudo em sua companhia silenciosa.


Agora fico a observar tudo com sentimentos diversos. As doces lembranças, os sonhos que não serão realizados, ou aqueles que até poderiam “se...”. 

Com a solidão e milhares de sentimentos, guardo minha xícara, respiro fundo e adormeço.


terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

As estranhas manias do amor

O amor e sua estranha mania de  ver flores mesmo no inverno.
De querer guardar o outro em um pontinho de vidro.
De querer proteger mesmo quando sua mão não alcança mais.

A estranha mania de sempre querer esmagar em um abraço.
De sorrir com as árduas vitórias e chorar pelo simples tchau ao ir embora.
De não entender que os filhos,  irmãos, amigos, sobrinhos crescem e precisam voar.

A estranha mania de só apontar os defeitos do outro pra ele e falar de todas suas qualidades para os outros.
De brigar e daí a poucos minutos estar pedindo algo emprestado.
De colocar sempre a culpa no outro, mas ficar com dó quando o outro sofre as consequências.
De fingir nem se importar,  mas querer matar qualquer um que ousar falar ou fazer algo contra o amado.

A estranha mania do amor de achar que tem o outro como propriedade.
De zoar e no final falar "brincadeirinha".
De ter sempre um ciúme quando a atenção precisa ser dividida.

A estranha mania de estar no mais simples.
Do sorriso mais bobo até o sim no altar.
A estranha beleza de se compadecer e não ponderar esforços pela felicidade da pessoa amada.

A estranha mania do amor de ser indefinido,  fazendo-o assim uma beleza imensurável.  Amor é escolha certa e não herança,  é decisão e não sentimento é se doar mais que receber e saber que mesmo precisando de abrigo sempre será morada!


segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Um ano depois...

Texto escrito no dia 11/12/2016, com doces e amargas lembranças.  Dia de decisão e grandes agradecimentos...

Hoje o dia merecia ter tido festa, daquelas bem animadas, com direito a forró até o dia raiar. Não, não é meu aniversário (ainda), não estou comemorando o aniversário de ninguém e nem um ano de namoro e essas paradas (não mesmo, rs).  Mas hoje posso dizer que é o dia que Renasci
Iniciei o dia conversando com minha mãe sobre o 11/12/2015, atualizando, foi o dia que tive o surto depressivo. Quanta agonia, medo e tristeza se deu naquele dia. Eu e minha mãe lembramos de tudo, de cada passo daquele dia, de cada momento de dor e desespero por parte dela e da minha família. 
Relembramos as pessoas que foram nossos apoios nessa hora. Aqueles que indicaram onde deviam me levar, como proceder, o que passou pela cabeça da minha família, enfim... Tudo!

Posso dizer que depois de um ano, eu me sinto outra pessoa. Do dia do surto até hoje, querendo ou não eu lembrava dos acontecimentos, me deixava entrar na melancolia e nas lembranças duras daquele segundo semestre de 2015. Hoje, não mais! Sei que toda essa história vai me acompanhar pra sempre, cada dor, cada ferida, todo choro e falta de coragem irão ser levadas comigo, mas não de forma que elas retomem, mas sim da forma branda que conto e digo que venci! 

Sempre me considerei forte, colocando minha dor no bolso e indo de encontro ao outro. Ser forte dessa forma é ótimo, mas nada se compara em ser forte com os outros. Eu passei por isso tudo e hoje comemoro, porque eu tive uma galera linda e querida ao meu lado. Amigos que se compadeceram, desceram onde eu estava e com palavras, abraços e orações me reergueram. 

A festa hoje foi de orações e agradecimentos. A Virgem Maria com todo seu cuidado de boa Mãe trouxe a cura do céu, me devolveu um sorriso que eu jamais devia ter perdido. Me colocou nos braços do Amado e cuidou de mim. Hoje, tenho certeza que ela me abraçou e disse que sabia que tudo passaria. E passou, Boa Mãe! 
Deus permitiu que cada folha em mim caísse, permitiu que por um tempo eu fosse outono, mas hoje me recorda que estou aqui para florir! E ser uma Flor de Maria!    


sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Outono: voar ou ficar?

Era tarde de outono e lá está ele sentado no banco daquele parque coberto de folhas secas. Que paisagem! Ela chega comendo pipoca e senta ao seu lado.

-Pipoca?

-Não, obrigado! – Ele a olhou e riu do jeito engraçado que chegou e nem sequer o cumprimentou. – 
Quando éramos crianças você era mais educada, Lili. Sempre dizia pelo menos “oi” antes de oferecer pipoca.

-Ah, lá vem você! É que vim pensando em algo muito importante. Mas já que insiste... Oi! – Dá um sorriso amarelado, se levanta e joga o saquinho de pipoca, vazio, na lixeira. Volta para o banco com cara de pensativa, pisando lentamente nas folhas secas para ouvir os barulhinhos que elas emitem.
Senta-se novamente e fica com olhando adiante.

-Lili, Lili. O que se passa nessa sua cabeça, hein?

-Ah, muita coisa e nada ao mesmo tempo. – Volta-se rapidamente para ele- Juninho, você já pensou em ser um passarinho?

Ele a olhou sem entender onde ela queria chegar com aquela pergunta sem nexo algum e respondeu. – Não. Já pensei em ter um jatinho. Serve?- E sorriu.

-Não exatamente! – Suspirou e olhou para o céu como se quisesse realmente sair voando. –Tenho me sentido só. E ser um passarinho me daria a oportunidade de observar muitas coisas e ser livre.

Há essa hora Juninho já não sabia o que falar. Ver sua amiga com aqueles pensamentos era um tanto embaraçoso. –Mas por que tem se sentido assim?

-Eu não sei, mas não culpo ninguém. Talvez eu não tenha ninho certo. – As lágrimas escorreram sem querer e ele a acolheu em um doce e forte abraço.

O abraço foi se intensificando de acordo com que o choro apertava. Um tempo depois tudo se acalmou, ele a deu um beijo na testa e disse. – Hoje o outono se inicia. Deixe que ele leve suas folhas velhas. Você precisa de um ninho novo que a faça ficar
.  



sábado, 24 de setembro de 2016

Meu Setembro Amarelo

Inspirada pelos textos que venho lendo esse mês sobre o Setembro Amarelo, decidi que precisava também contar minha experiência com a vontade do suicídio.  Sim, a história é real e é minha! E diante de tanta gente sofrendo com essa vontade de matar a dor, eu preciso dizer que transformei a minha.

Desde agosto de 2015 comecei a passar por alguns problemas que invadiram totalmente meu psicológico e foram me deixando mais retraída diante a vida. Tentaram me assaltar no meu trabalho e acabei indo parar na delegacia porque pegaram o assaltante.  Além do susto do assalto,  o que também me impactou foi a forma como os policiais daquela delegacia falavam comigo e o que falavam dos presos. Ok, o assaltante estava errado, mas não posso julgar toda a vida dele por apenas um ato.  Os policiais pediram que eu falasse mais do que aquilo que tinha realmente acontecido para incriminar de fato o rapaz.  Não o fiz e sai de lá muito mais assustada e triste do que se tivesse sido assaltada de fato e não tivesse ido parar ali. Isso resultou em um fim de semana em prantos, não por mim, mas pensando em como a nossa justiça é injusta e cruel. Internalizei aquele acontecimento e segui a vida.

No mês seguinte fui ao médico pois já havia uns dois meses que sentia muita dor na região abdominal e nada do que tomasse resolvia. Descobri então que estava com um cisto no ovário e a médica,  não sei se por pouco profissionalismo ou por gostar de causar medo em seus pacientes, me disse muitas coisas que me deixaram com medo. Entre elas que um cisto na minha idade era algo de se preocupar e que eu poderia até ficar estéril.  Pra uma pessoa que sempre sonhou em constituir uma família,  isso foi algo que me fazia pensar com dor e me causava tristeza.  Apesar de não querer mostrar minha preocupação pras pessoas a minha volta,  eu estava preocupada sim. Mas em meio a correria não procurei outro médico e segui a vida. 

No início de novembro eu estava a todo vapor no teatro com a minha apresentação e da turma que eu ajudava a dirigir. E também tinha o meu trabalho.  Mas eis que uma maravilha acontece: nascimento do Heitor,  meu sobrinho.  A alegria invadiu a vida e lá fui eu visitar ele, minha irmã e cunhado em SP. Não poderia ir fim de semana por causa do teatro,  então fui durante a semana mesmo. Fui na quarta à noite e voltei quinta à noite. Fui de ônibus, e por ser uma viagem corrida,  decidi ir viajar de semi-leito para poder descansar. Mas não foi uma ideia tão boa assim... Abriram minha mochila e me furtaram e também tentaram enfiar uma agulha no meu braço enquanto eu cochilava. Acordei assustava,  sai dali e fui pra área executiva. Chorei todo o resto da viagem e o motorista nada fez. Então mesmo preocupada, com medo de ter me passado alguma doença, o momento era de felicidade e eu segui a vida.

Quando voltei de viagem, minha avó internou. Exatamente no dia seguinte que cheguei e aí a jornada de ficar com ela à noite no hospital iniciou. Nunca abri mão de estar perto dela, e mesmo diante de trabalho e festival de teatro não ficaria longe. Os dias foram se passando e os médicos diziam que ela estava velhinha,  fraca e que não poderia fazer nada, porque ela não tinha doença alguma, apenas estava fraca mesmo pela idade. 
O festival de teatro acabou. No mesmo dia do encerramento eu recebi uma intimação daquele assalto que havia acontecido comigo no trabalho e no dia seguinte minha avó piora. Minha cabeça não sabia em quê pensar, mas me fiz de durona e como sempre,  segui a vida. Cinco dias depois disso,  minha avó foi embora.  Pronto, o mundo desabou aí!
Mesmo assim segurei muito choro no dia do falecimento e no velório.  Eu pensava que precisava estar com minha mãe que era filha, com meu tio e com minha irmã que estava presente na hora que a vó faleceu. 
Os dias foram se passando e me sentia cada dia menos em mim. O coração doía tanto! Eu era muito apegada a minha vó,  ela morava aqui em casa e dormia comigo desde que me entendo por gente.  E após seu falecimento nem meu quarto me cabia mais!  Uma semana após o seu falecimento eu tive um surto depressivo.  Sai de casa uma noite,  sem falar nada e fui andando até uma praça. Me acharam depois de algumas horas aos prantos,  debaixo de chuva e dizendo que eu estava esperando minha avó me buscar.  Não lembro muito das coisas que aconteceram,  sei o que me contaram.  Voltaram comigo pra casa, eu chorava e pedia minha mãe pra me deixar ir embora,  que aquela casa (a minha) não era a minha casa. Que eu precisava sair dali...
Me levaram ao psiquiatra dois dias depois de tanto choro, noites sem dormir e pedidos para ir embora. Tive um surto depressivo após tantos acontecimentos, onde a perda da minha avó foi o ápice.  Comecei a tomar remédios e fazer acompanhamentos psiquiátricos.

Minha vontade ainda era ir embora,  mas dessa vez não mais só da minha casa, mas ir embora da vida. Eu queria acabar com a minha vida,  pois tudo que eu havia passado doía muito em mim. Cada acontecimento tinha me deixado marcada e com menos esperanças de viver.  Por tantas vezes eu subia pro terraço da minha casa com o intuito de pular dali para não sofrer mais e nem causar sofrimento para as pessoas que tanto se preocupavam com meu estado.  Por cada problema que passei eu contava pras pessoas,  mas não conseguia expressar o que aquilo causava dentro de mim. Com isso fui acumulando dor e mil pensamentos sozinha, até a hora que não suportei mais e tive vontade de sim, me suicidar. 

Depois de quase um ano do ocorrido,  eu agradeço imensamente a Deus e a Virgem Maria,  que mesmo nos dias que eu acordava à noite e chorava eu Os sentia comigo.  E claro,  a minha família e meus amigos que estiveram comigo em cada passo dessa difícil jornada.   Hoje, faço questão de agradecer cada um pelo nome, pois nenhum agradecimento será suficiente.
Mãe e pai pelo amor incondicional que tudo fez pelo meu bem estar.
Meus irmãos, Nil, Binho e Di que como sempre,  me ajudaram a ver a vida de novo com outros olhos.
Cunhados,  Fá e Elton,  que se fizeram irmãos, rezaram e me ajudaram a sorrir pras minhas próprias cabeçudices.
Chico, por ter estado comigo em cada acontecimento, por ter tentado entender o que se passava dentro de mim. Que rezou por mim e comigo,  e me falado todos os dias que tudo ficaria bem, que eu era forte.  "Seja Maria!"
Ariadne, minha linda e querida chefa, por me dar uma força que me reergueu. Por ter cuidado de mim como segunda mãe e me mostrado que tudo que eu sentia era forte demais,  mas que eu podia passar.
João,  por ter me achado no dia do surto, por ter rezado e me ouvido.
Analine,  que me visitou e me levou pra um dos meus lugares favoritos.  Me feito rir. Que rezou por mim e se preocupou como irmã.
Wesley,  esse jovem grande homem que rezou por mim, se preocupou e me vistou por poucos minutos quando eu estava um pouco dopada de remédios,  rs.
Jack e Di, padrinhos queridos,  que como sempre se fizeram solícitos e me amaram nas pequenas coisas.
Alê,  que mesmo com toda a distância e seu jeito durão e seco, me deu força,  me ouviu e cuidou.
Hudson,  com seus poemas e os seus "Rhay, seu sorriso é lindo!", me fazia entender que eu era de uma importância que eu não imaginava.
Jhon, que não acreditava no que havia acontecido por eu ser tão "de bem com a vida", mas que me compreendeu e me falava que eu ficaria bem mais rápido que eu imaginava,  que eu era exemplo e força pra muita gente.

Aninha, pelo amor e cuidado "vem comigo, no caminho eu te explico!" A frase que me acalentava! 
Elen e Fred, amigos e irmãos, que no dia que sumi iam me procurar.  E depois do ocorrido estiveram comigo pra me ajudar a suportar as dores.
Tantas pessoas mais que sei que rezaram por mim, estiveram dando força pra minha família que também ficou abalada neste período.  Muito obrigada, gente! Por vocês meu amor, carinho e muito obrigada!

Eles me ajudaram a entender que eu tenho minha importância,  que não estou sozinha mesmo quando não vejo saída.  Que ficava me lamentando por não ter ninguém, que eu sofria tudo sozinha, mas na verdade todo mundo sofreu comigo.  Através disso eu entendi que acabar com a minha vida, seria acabar com um pouquinho da vida de cada um e que a saída não era matar a dor, mas sim transformá-la. Seja em aprendizado ou saudades. As pessoas me ajudaram e muito,  mas só encarei a vida de volta a partir do momento que eu me decidi por assumir o que havia acontecido e aceitar que não tenho que ser forte o tempo todo.
Ter um problema é difícil demais, querer acabar com esse problema se matando é grave. Ouvir mais as pessoas a nossa volta é uma forma de ajudá-las a aliviar a dor. E falar para as pessoas o que se passa com você é uma vacina contra o seu desespero interior.
Chegar ao ponto de não querer viver mais dói muito e não é algo mais tão controlável assim. Cuide de você e das pessoas que vivem contigo. 




Ps:  Não,  não tomo mais remédios.  Não tenho mais cisto e nem faço mais acompanhamento psiquiátrico.  Ao tentar morrer,  eu nasci de novo!  :)  

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Tivemos Alzheimer!

Esses dias li algumas matérias e testemunhos sobre as pessoas que sofrem de Alzheimer. Sim, é um sofrimento não lembrar mais quem você é hoje e pensar que você é aquela pessoa de dez, quinze ou cinquenta anos atrás. Mas o que mais me chama atenção em todos esses relatos são as pessoas que cuidam de seus parentes com o bendito Alzheimer.
Na minha família tivemos um caso de Alzheimer. Não, um caso não. Tivemos a nossa querida avó e mãe com Alzheimer.  Quando descobrimos o Alzheimer em nossas vidas a vó já estava aproximadamente com 85 anos. Para muitos era “normal” ela estar esquecida assim, afinal já era idosa. Mas só, nós, que convivíamos diariamente com ela sabíamos o quanto era difícil.

O primeiro contato, quando fomos saber como era a doença, como ela progredia ficamos em estado de choque sim. – Poxa, ela nos esqueceria com o tempo e só se lembraria daquilo muito antigo - E sim, choramos e ficamos inquietos com o que poderia vir.  Era triste ver que as coisas atuais já não eram mais lembradas. Pouco a pouco, algumas pessoas, por falta de convívio, foram sendo esquecidas e tantos mais acontecimentos que a vida da vó teve naqueles últimos tempos quando o Alzheimer chegou também era algo que ela não se recordava.  Até foi passado pra ela um remédio que pararia o avanço do Alzheimer, mas fazia mal a ela.  Então minha mãe, que sempre foi a cuidadora dela, decidiu não dar mais (com consentimento dos médicos), afinal não ia adiantar tanto mais o remédio, nada iria voltar como antes. E com os esquecimentos iríamos nos acostumar.

A minha família teve essa linda missão de cuidar da vó. Eu, minha mãe, meus irmãos e meu pai. No princípio que dificuldade! Era estranho ter que repetir tudo muitas vezes no dia, a nossa paciência foi uma das principais virtudes que em nós tivemos que trabalhar. Mas com o tempo fomos entrando no mundo dela, vivemos na época que ela estivesse. O dia era qualquer um e procurávamos que fosse um dia que ela recordasse de algo.  Minha mãe, quem ficava com ela o dia todo, pois o restante saía para trabalhar e estudar, foi à pessoa mais agraciada entre nós.  Afinal, foi presente de Deus sim ter a oportunidade de passar com a vó mais essa etapa de sua vida.

Muitas vezes minha mãe chegou a ficar impaciente, e essas horas ela saia de perto, pedia que um de nós fizesse algo para a vó. Nunca vi minha mãe perder a paciência com a vó e se alterando. Ela rezava, pedia muita a Deus e a Nossa Senhora que desse a ela paciência para cuidar da vó e não se alterar nunca.  Todos nós rezávamos por isso! Foram anos difíceis sim, mas muito agraciados.

Nesses anos que a vó teve Alzheimer juntos choramos, com a vó sorrimos, brincamos, amamos muito e fomos sim felizes com ela a cada segundo. Mas o que seria de nós sem Deus e Nossa Senhora. Foram eles que estiveram conosco durante todo esse tempo, pois sem Eles a paciência teria acabado e os dias teriam sido sem nenhum sorriso. 

Portanto, se um dia você souber que tem alguém que cuida de uma pessoa com Alzheimer, reze não só pelo doente, mas também por aquele que cuida. Porque nesse momento, onde a memória atual não se faz presente, o amor preenche. E só alguém que tenha consigo a força do Alto pode dar esse amor.



Hoje, depois de quase cinco meses sem a nossa passarinha nessa terra, tenho a alegria de todo o coração de dizer que valeu a pena ela ter tido o Alzheimer. Não foi só luta gratificante, mortificação para nós que cuidamos, mas foi bem estar para ela que já não se lembrava de quem foi ausente e que sabíamos que ela queria perto, afinal sempre perguntava quando estava lúcida. Eu tenho certeza que ela viveu seus últimos anos melhor assim. Mesmo com nossas falhas e medos demos amor pra ela e é isso que realmente importa! E um segredo: a pessoa que tem Alzheimer não se esquece daquele que está presente e muito o ama. Ela nunca esqueceu minha mãe e nem a mim!